Este cachepot já pertenceu à mãe do Eme, veio cá para casa há uns anos e já abraçou muitos vasos com plantas diferentes. No outro dia, olhei para ele com aquele olhar de quem lhe vai dar um destino final. Achei que já tinha tido o seu papel nesta casa, estava velho e estragado – a base a soltar-se, o alumínio muito amassado…

Às vezes desejava que saísse das minhas mãos a simplicidade das linhas que saem das mãos das crianças… a pureza do traço, antes ainda de criarem a dependência da borracha. Infelizmente, à medida que vamos crescendo, a mão é treinada, a linha estudada e a inocência perde-se. Exprimir desejos, sentimentos e refletir o mundo de cada um, nunca mais é feito da maneira que fazemos enquanto somos crianças… e isso tem mexido com a alma de muitos e muitos artistas artistas (estou a lembrar-me de Miró e do seu esforço ao longo da vida no sentido da simplificação do traço).
É por isso que me encantam os trabalhos dos meus pequenos aprendizes das Artes e é por isso que, na nossa casa, a arte da Ca mistura-se com a minha e com a de outros artistas dos quais gostamos. Desde sempre emoldurámos os desenhos, pinturas e pequenas esculturas que a Ca está constantemente a fazer e desde sempre ela viu o seu trabalho valorizado. No quarto, tem uma parede a que chamamos de “galeria”. Lá, expõe as suas obras favoritas e está sempre a ser atualizada a seu gosto.
Desta vez, resolvemos ir um pouco mais longe e juntar as nossas duas expressões. Começámos por selecionar dois desenhos de quando era bem pequena, duas obras com muito significado para nós – a mãe, o pai e ela. Digitalizei-os em alta resolução, com uma grande ampliação, pintei-os ao meu modo e eis o que saiu:

Um dia, em casa da minha avó, resolvemos remexer a sua gaveta de naperons e, como já não os utilizava, a Mimila ofereceu-me alguns, na certeza de que eu faria bom uso deles. Na realidade, lembrei-me de que podiam ser aplicados em fronhas de almofada, tornando a minha avó sempre presente cá em casa. A minha mãe ofereceu-se para as fazer (já que o meu jeito para esta tarefa deixa muito a desejar…) e saíram lindas, lindas!

Um destes dias, embora não tenha partilhado aqui, resolvi atirar-me ao closet (existe em português uma palavra para isto, que não roupeiro?). Desta tarefa saiu roupa para lavar, roupa para dar e roupa/acessórios para deitar fora. Cheguei à conclusão que partilhar o espaço da roupa de vestir com a roupa de cama e wc não me agrada. Conclusão:
EME, PRECISAMOS DE UM ARMÁRIO PARA A ROUPA DE CASAaaa!!!
Procurámos o armário ideal, procurámos e procurámos… embora o ikea tenha sempre o que precisamos a bom preço (é incrível!), não queria mais uma solução Ikea ou semelhante… Procurámos, então, algumas lojas de móveis antigos… e nada!
Tinha visto um num armazém de móveis vintage, do qual gostei muito, mas, além do armazém ter fechado, desconfio que ainda não seria o ideal.
Foi então que o Eme, sugeriu: “Desenha, que eu faço!”
“Não digas isso duas vezes…”
E não é que disse mesmo?
Desenhei o dito e já “começámos” a construí-lo!!!
Se ficar bem, partilho os planos, querem?

Sempre que os nossos pais, tios e amigos vêm cá a casa, já entram a perguntar:
“Então, o que há de novo?”
“Eh pá, isto está diferente!” – também é costume ouvirmos…
Desta vez foi a mãe do Eme: “Então, há mudanças nesta casa? Quais são as novidades? Ah, ainda não tinha visto isto!…”
Tenho, então, andado a pensar: Será que isto só nos acontece a nós? E será bom ou mau? Devemos ficar contentes por aguçar a curiosidade das nossas visitas ou será isto sinal de alguma maluquice da nossa parte? Será que já acabávamos com estas obras e mudanças?
O problema foi que quando nos mudámos para cá, há cerca de 10 anos, fizémos obras, não assim tão pequenas, mas com um orçamento limitado às nossas possibilidades. Por outro lado, pouco depois surgia a oportunidade única de adquirir também o rés-do-chão (uma segunda casa, mais pequena), onde instalámos o atelier. De lá para cá, a nossa lista de afazeres nunca mais teve fim.
Se tivéssemos um milhão de euros, esta casa já estaria um brinco!
… mas, se calhar, já estaríamos prontos para sair dela e ir para outra. E aqui é que reside a nossa pequena “insanidade mental” – gostamos desta casa porque quase tudo nela tem sido feito com as nossas mãos; gostamos desta casa porque a vemos evoluir, porque nos dá luta, porque nos faz definir objetivos e fazer planos em família; gostamos dela porque temos vindo a ajustá-la às nossas necessidades, assentando-nos que nem uma luva… e porque no dia em que nos deixar de dar que fazer, perderá a graça.